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Andanças de Platonito |Filosofia com crianças

  • Foto do escritor: Edi Pereira
    Edi Pereira
  • 20 de jan. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de ago. de 2023


Fonte autoral


Parte I – Alegoria da Caverna


O sol já raiava a pino lá fora enquanto Nito enrolava na cama para se levantar. O sono havia ido embora há horas, mas o menino aproveitava os domingos para “brincar de pensar” em seu quarto como gostava de dizer. Sua mãe, dona Sofia, preocupada com a mania de pensador de Nito, inventava mil ideias para arrancá-lo do quarto. Sugeria construir patinete, passear com Diotima, sua cachorrinha de estimação, visitar um amigo para brincar de bola na rua, ir ao shopping tomar sorvete, jogar videogame com os primos Glauco e Dionísio... Mas nada era tão gostoso pra Nito quanto brincar de pensar rolando pela cama-espaço sideral aos domingos.


O menino sempre falava para sua mãe que não tinha culpa em pensar tanto. Dizia que as ideias eram como chicletes grudentos que não saiam da sua cabeça, quando ele tentava tirar uma resolvendo o problema, logo surgia outra e outra e outra. Assim, ele tratou de fazer dos domingos um tempo de “pensância”:


- Assim consigo arrumar a bagunça que os pensamentos fazem em minha cabeça...

- Na cabeça e no quarto, né Nito?! – Interrompeu dona Sofia lá da cozinha ao escutar a conversa do menino.


Pois é! O quarto de Nito é tão bagunçado quanto sua cabeça! É sapato pendurado no cabide, meia na maçaneta, caderno no pé da cama e uma infinidade de bilhetinhos colados pelas paredes, janela, armário e luminária. Outro dia encontrou o controle remoto da tevê dentro do aquário do Sócrates, o peixinho dourado que nada, nada e nada sabe dessa confusão de Nito. O controle? Ah... não controla mais nada! Era tanta água dentro dele que não teve como recuperar. Depois disso para ligar a tevê, Nito precisa sair do seu cantinho tão cheio de ideias e apertar o botão. Se bem que o menino nem gosta de televisão. Sempre diz que aquilo é só enganação! Ele gosta mesmo das imagens que seus pensamentos desenham, pintam, repintam e desfazem enquanto rola e desenrola na cama.


Falando nisso, outro dia Nito com uma dessas ideias-chiclete que vive tendo, lembrou-se de um pensador que sua professora ensinou que acreditava existir um mundo das ideias. Este pensador, chamado Platão dizia que elas, as ideias, tinham um mundo que era só delas. Nós não as podemos ver, nem tocar, mas ainda assim, são reais, eternas, perfeitas e nunca mudam. Depois desta aula, Nito não parou de pensar nesta ideia que grudou de vez em sua cabeça e começou a andar pelo quarto de um lado para o outro tentando imaginar como seria um mundo-pólis das ideias que são belas, boas e grandes em si e por si... Nito ficou tão entusiasmado com esse pensamento que fechou os olhos e se teletransportou para esse mundo cheio de ideias e perguntas...


Andando por esse mundo-pólis das ideias, o menino se lembrou de um mito contado por Platão e quis desafiar-se para ver se realmente concordava com o grande pensador. Colocando-se no lugar do filósofo, Nito, ou, como pensou que deveria chamar-se, “Platonito”, começou sua andança pensante sobre como seria se ele por toda a vida tivesse ficado preso em uma caverna, sentado contra a sua abertura olhando apenas para uma direção, onde nada ou ninguém atravessasse. Como seria se nesta parede fosse possível observar as sombras dos objetos, pessoas e animais que passassem pela abertura iluminada? O que eu ali enxergaria?


Nito, em seu mundo-pólis instigou-se com as suas primeiras indagações e continuou:

- Bom! Se somente as sombras estivessem ao alcance dos meus olhos, o que eu pensaria sobre elas?

O menino era mesmo perspicaz! Não se cansava de perguntar e perguntar. E imaginando-se no mundo das ideias, quis ir mais adiante para provar a si mesmo se os pensamentos do seu filosofo preferido tinham ou não algum sentido. Assim, pensou:


- Se então eu estivesse nesta caverna de longa data e de repente, me libertasse e, enfim, pudesse ter contato com a luz do sol com os seres e objetos de maneira a vê-los com maior perfeição, o que eu pensaria acaso me perguntassem o que achava do que vira antes?


Esta andança estava mesmo a colocar Platonito de pernas para o ar. As ideias-chiclete que este mito trazia estavam deixando-o muito intrigado e curioso. Queria saber mais e mais, afinal, é somente pela razão que é possível alcançar o mundo das ideias. Ainda que sua mãe o chamasse de volta para seu quarto e seu dia de domingo, Platonito continuava a sua viagem pelo mundo-pólis para descobrir os caminhos do pensamento de Platão. E voltando-se para o mito da caverna, prosseguiu:


- Passado um tempo e com os olhos habituados ao mundo inteligível com formas, astros e texturas, o que eu compreenderia?


Platonito logo pensou:

- E se acaso, tivessem estado comigo outras pessoas na caverna e que, nas mesmas condições, passaram todo este tempo presas a olhar as mesmas imagens que eu via, não estaria com desejo de voltar a esta morada e lá avisá-los que as imagens que veem são sombras? – Hesitou por um instante e continuou:


- Mas será que essas pessoas em mim acreditariam?

O menino estava mesmo preocupado em encontrar respostas (ou mais perguntas?) para as questões de Platão. Queria a todo custo alcançar o tal mundo das ideias e percorrer esses caminhos de pensamentos o ajudavam muito nisso! O quarto que tivera se transformado em mundo-pólis, estava ainda mais bagunçado com as andanças de Platonito, mas a vontade de entender todo esse universo de ideias era muito grande, então nosso pequeno filósofo persistiu:


- Ainda que na caverna houvesse prêmios àqueles que melhor observassem as sombras e as distinguissem umas das outras, será que tendo visto que aquelas sombras eram ilusões, imagens falsas da realidade, eu preferiria voltar à vida de antes?


Platonito também pensou de outro modo:

- E se acaso eu voltasse à caverna e lá tentasse avisar aos companheiros das coisas todas que vira no mundo lá fora? Se os dissesse que o que ali enxergavam eram sombras, o que será que eles pensariam?


Terminando as andanças deste dia, Platonito compreendeu o que seu filósofo Platão quisera dizer com o mito da caverna, mas ainda restava uma dúvida e o menino ainda se perguntou:


- Mas afinal, o que há no mundo inteligível?


Feliz em ter usado a razão, mas cansado de tanto pensar, o menino Platonito adormeceu em meio as colunas do templo do mundo-pólis que construiu. Acordou já em seu quarto, no dia seguinte com uma molhada lambida de Diotima em seu rosto avisando que era hora de pular da cama, afinal, era segunda-feira e a escola o esperava para mais um dia de aula.


25 de Setembro de 2018




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