Meus olhos veem o quê? #1
- Edi Pereira

- 11 de mai. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de set. de 2020

Fonte: autoral
Olhos de chão
Caminho. Verbo. 1ª pessoa do singular. Presente do indicativo.
Caminho. Substantivo Masculino. Meio para se alcançar algo. Faixa. Passagem. Paragem. Paisagem. Imagem.
Caminhando, assim, no gerúndio, encontro caminho, assim, no singular. Caminho por ele e, de repente, perturba-me a visão, vertigina-me os passos. Olho. Num instante se multiplica. São diversos, variados, compostos, complexos, plurais. Caminhos. Meu olhar embaça, anuvia. Lívido, preciso piscar. Perplexo, preciso encontrar no escuro das minhas pálpebras um refúgio, um exílio, proteção.
Palavras. Gosto delas. Elas me fazem arrazoar todo o tempo. Os caminhos também. Para onde nos levam? Olho para os caminhos que se delineiam em minha frente e afino. Afinar é uma brincadeira. Brincadeira é coisa de infância. Lembro-me da minha infância e das folhas da minha infância. Lembro-me que, quando criança, gastava tempo com posições de olhar. Sim! Posicionava meus olhos para ver as folhas e o chão e os bichinhos do quintal por óticas diferentes. Tudo mudava. O mesmo cenário sempre completamente outro. Reparava a miudeza das coisas, os contornos das folhas, o desnível do chão. Nas formigas, suas pernas, antenas, corpos estranhos. Vidas. Eram vidas e ai de quem as matasse! Chorava como quem vela um ente querido. Fazia velório. Já enterrei algumas em caixas de fósforos, com direito a cruz na lápide. Era um mundo muito particular, muito meu, muito inteiro. Passava o tempo de um dia inteiro - que bem parecia ter muito mais que vinte e quatro horas - por lá a analisar as inúmeras famílias que existiam naquele trecho de terra...
Olho novamente para o chão, o chão do presente: raízes, folhas, terra, bichinhos, pés. Meus pés. Meus pés no chão. Pisam. Apoiam-se. Broto também eu da terra?
Os olhos levantam-se ... Procuro a palavra apropriada... Não a encontro... Os olhos levantam-se. O que vejo agora são os troncos apoiados em raízes que saltam galopantes para fora da terra. Talvez se cansaram do anonimato, do sustento solitário e esquecido de toda uma árvore. Os olhares experientes endurecem. Olham sempre a beleza das folhas, das flores, dos frutos. Olham a rugosidade específica dos troncos, os desenhos dos galhos, a suntuosidade das suas silhuetas, silhuetas que posam para o artista e elas, as raízes, nunca são lembradas. As árvores nesta magnificência característica vertical roubam os olhares, aqueles que enxergam o alto. As raízes, rizomáticas, desambiciosas, buscam mantê-las em pé. Quem é mais magistral?
Continuo a olhar este caminho, que já são muitos, que me levam a tempos distantes do passado, mais distantes ainda do futuro. Recordo-me que os caminhos são passagens. Passagem é sempre um fragmento de algo. É fragmento porque não é lugar de permanecer. Como o próprio nome sugere, é lugar de passar. Que triste ser passagem - pensei. Sempre é preciso estar despedindo de algo, sempre é preciso estar despedindo de alguém. Lembrei-me que detesto despedidas... Despedida é um despir a alma de algo que já fazia parte, de algo que a tornava inteira. Despedir dói. Não gosto. Sinto o peito apertar por pensar que às vezes é preciso despedir. Não! Definitivamente não gostaria de ser passagem! Mas sei que sim... muitas vezes não escapamos de sê-la.
Meus olhos cintilam e retorno à paisagem. Busco em minha memória algum lugar tão bonito assim. Não encontro igual beleza. Não, não é possível. Cada lugar carrega em si a potência da alteridade. Não há como encontrar outros iguais. Meus olhos umedecem. Esse lugar me cativa! Suas folhas, sua terra, suas raízes e até mesmo as árvores que, apesar de etéreas, me parecem petulantes, me levam para túneis de muitas reminiscências.
A sombra me acaricia. Os feixes de luz traduzem a imagem do dia. Retorno mais uma vez à infância, quando deitada sobre a cama, espreitava a luz entrando no quarto pela brecha da janela. Gostava de ver como a poeira se movimentava nela. Ela, como bailarina, parecia dançar na luz e me distraía. Ria sozinha. Tentava alcançá-las com os dedos. Tive uma infância solitária. Com poucas crianças nos arredores, sem primos na cidade e tendo iniciado os estudos apenas aos seis anos de idade, os primeiros anos da minha vida foram inundados de adultices com recorrentes escapes entre os meus aforismos. Passava horas a fio contemplando as nuvens e observando o comportamento dos pássaros no quintal. Vez ou outra improvisava amizade com alguns que faziam morada efêmera nas árvores, mas que partiam e me partiam de tanta saudade.
Volto meu olhar ao chão. Vejo-me menina. Sinto alguma melancolia que logo cede ao entusiasmo próprio de me perceber num caminho. Não qualquer caminho, mas um caminho novo. Não estava mais sozinha entre os meus sentires frágeis. Ele me fazia companhia. Caminhos são passagens. Passamos juntos por ele. Sinto uma alegria crescente no peito. Sorrio. Tão logo as palavras escapam... Quero que ele também perceba o que meus olhos veem. Ele vê de um modo muito particular, eu sei. Mas desejo compartilhar minhas sensações. Ele as aceita. Delicio-me com a paisagem, com a passagem e com meu companheiro de viagem.
Meu olhar de chão esgueira sobre o final do caminho. Vejo a simetria pensada no plantio das árvores. Sinto o cheiro do perfume da professora de Arte, Célia. Rememoro as réguas, lápis grafite graduado 6B, papel quadriculado. Lembro-me que nada daquilo me convencia ser Arte e que a pouca afabilidade da professora não denotava nenhum apreço ao que era belo, como eu, porventura, esperava de uma professora de Arte. Senti pena. Dela talvez, mas muito mais de mim. Que falta me faz não ter sido agraciada por uma professora de Arte com traços sensíveis.
Olho mais uma vez a imagem. Sinto que ela me invade. Fecho os olhos para ver se ela está fidedignamente registrada em minha memória. Ela está! Não sei até quando, mas agora está! Busco o celular. Tenho me seduzido pelas fotografias e por essa deliciosa maneira de registrar imagens em que meus olhos viram tanto. Talvez porque não tive uma professora de Arte com afabilidade que me despertasse o desenhar. Talvez porque desenhar se trata de um dom que não possuo. Talvez porque há muita beleza no mundo escondida nos nossos apressamentos. Não busco tanto as respostas. As perguntas como as imagens e fotografias, me florescem.
Fotografo. Aquelas nuanças, daquela tarde específica, daquele caminho singular, daquele caminho plural, ficaram registradas. Um acontecimento. Irrepetível.
29 de Abril de 2020

Me senti como em um mergulho na sua alma. 😍 Muito lindo!! 🥀🍃❤ Cris