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(Im)passes psicanalíticos #1

  • Foto do escritor: Edi Pereira
    Edi Pereira
  • 21 de ago. de 2023
  • 5 min de leitura

O que escapa do sujeito, o evoca: o sonho na realização disfarçada de um desejo


Os gestos, as palavras, os silêncios, os delírios, os desejos. Aquilo que nos enche e, também por isso, nos esvazia. O lugar do não-domínio de si, ou, aquilo que coloca a cada um de nós à beira de precipícios psíquicos. Não à toa, Freud encena a terceira ferida narcísica da humanidade ao apresentar à sociedade sua teoria sobre o inconsciente como essa estrutura que promove ações às quais são influenciadas por instâncias dissociadas do controle ou do aparelhamento racional do psiquismo.

Passante por este caminho, a ideia que nomeia este texto: o que escapa do sujeito, o evoca, surge para pensarmos a imagem da relação que construímos com os nossos desejos e as maneiras que nos interpretamos e interpretamos o mundo, a comunicação, os demais sujeitos e os objetos sob a lente desses desejos. Seriam nossas percepções, extensões daquilo que ainda nos perturba, que ainda nos comove, ou são vislumbramentos escamoteados para que a novidade – enquanto transfiguração do novo, desse desejo realizado – possa eclodir?

Agamben (2009), filósofo italiano contemporâneo, nos provoca ao dizer que:


[...] tudo aquilo que no presente não podemos em nenhum caso viver e, restando não vivido, é incessantemente relançado para a origem, sem jamais poder alcançá-la. Já que o presente não é outra coisa senão a parte do não-vivido em todo vivido, e aquilo que impede o acesso ao presente é precisamente a massa daquilo que, por alguma razão (o seu caráter traumático, a sua extrema proximidade), neste não conseguimos viver A atenção dirigida a esse não-vivido é a vida do contemporâneo. (p. 70).

Esse presente não-vivido é a interpolação de um desejo pré-histórico, uma fratura, o incalculável, uma generosidade com a ideia de mundo e que não se limita às crenças de normalizar, conglomerar, homogeneizar, representar o mundo como espaços-tempos do mesmo (dentro, incluído) e do outro (fora, excluído). Um não-vivido interditado, censurado, coibido.

A vida em uma sociedade fixada no controle e filiada a um grande gerenciador de si com as mudanças que o neoliberalismo provoca, não raro, impele para baixo do tapete da existência muitas das substâncias que também nos afirmam. Na constituição psíquica, ID – dimensão mais primitiva, ligada ao corpo e fonte das pulsões de vida e de morte –, o Ego – camada do Id que teve contato com o mundo externo e, por isso, sofre contornos e ganha especificidades da realidade – e o Superego – dentro do ego, a camada que contém as identificações com os cuidadores primeiros que fundam a autoridade em cada sujeito – somos reiteradamente acusados e desaprovados quando na busca pela satisfação de alguns desejos mais passíveis de punição de acordo com os códigos moralizantes os quais estamos inseridos, ou mesmo, diante de desejos mais socialmente aceitos, mas não menos “puníveis” pela instância superegóica que assalta e encurrala o ego. Esse mecanismo de incessante recalcamento, armazena em nosso inconsciente conteúdos que, pela força das pulsões, buscam se insubordinar à consciência, ou seja, buscam tornarem-se acessíveis ao nível da consciência. Nesta estrutura entre a busca pela saciedade do prazer e as barreiras que a impede, criamos sintomas, mecanismos de defesa que, em certa medida, proporciona às pulsões reprimidas, um modo de expressão consciente e menos hostil ao que originalmente se estruturou, possibilitando aí algum gozo.

Para além dos sintomas, Freud em sua obra A interpretação dos sonhos, publicada em 1899, obra esta, considerada por ele o ponto primeiro da psicanálise, nos interpela dizendo que o “sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”. Até então, os sonhos eram considerados manifestações divinas ou premonitórias. Com os estudos de Freud e suas publicações seguintes, esses conteúdos oníricos passaram a ser compreendidos como formas de realizar desejos que estão repletos de informações do passado e do presente, o vivido e o não-vivido, como estímulos sensoriais, restos diurnos e conteúdos inconscientes. Segundo Freud, nossa mente armazena experiências e vivências, misturando-as com esses estímulos, os restos diurnos e os conteúdos inconscientes para representar – e neste ponto, vale ressaltar que os sonhos não são exatos e sim, representativos – nossos desejos mais profundos.

Tomando o sonho como o resultado de uma formação de compromisso entre as pulsões do ID e os mecanismos de defesa do Ego para que emerja no consciente de maneira tolerável pelo sujeito, ou seja, manifestações simbólicas através dos mecanismos de deslocamento, condensação e simbolização, é possível que pelo seu caráter regressivo, visto que durante o sono regressamos a uma condição mais primitiva e imagética do psiquismo, que os conteúdos latentes se mostrem através dos conteúdos manifestos.

Afinal, o que escapa do sujeito? Lacan, aponta que “só a perspectiva da história e do reconhecimento permite definir o que conta para o sujeito” (p. 52).

Na película austríaca Quando a vida acontece (2020), de Ulrike Kofler, o sonho tem um lugar importante que estabelece ancoragem para toda a trama. O casal Alice (Lavinia Wilson) e Niklas (Elyas M'Barek), após algumas tentativas frustradas de engravidar, o cansaço dos procedimentos invasivos e do esgarçamento que esses protocolos médicos estavam ocasionando no relacionamento dos dois não foi requisito para que conseguissem transpor os empecilhos biológicos. Para além do que o corpo poderia oferecer a esse casal, outra questão não menos dificultadora também se coloca: sem cobertura do plano de saúde, Alice e Niklas passavam pelo entrave que a condição financeira os impunha.

Esse é o contexto que o drama assume. O dilema do desejo pelo exercício da maternidade e, mais que isso, o desejo pela experiência gestacional atravessa os sentidos dos expectadores logo em seu preâmbulo, quando se dá uma cena com um alarido pueril ao fundo em uma bruma que quase não permite distinguir os contornos das personagens na claridade enfática de uma praia em dia de sol do sonho de Alice que diz: “Quero chamá-la, mas não consigo lembrar o seu nome. Sonhos são assim: as coisas mudam sem lógica. Nos sonhos, aceitamos isso. Somos indefesos e fazemos o que mandam”

O que escapa do sujeito, o evoca. Foi como iniciei essa escrita. Alice, ao dizer que nos sonhos as coisas mudam de lógica, não considera que exista uma lógica outra que escapa e, como areia seca, foge elas frinchas entre os dedos. Uma lógica que não diz respeito ao que esperamos conscientemente que aconteça e que nos reendereça pelo que recalcamos outrora - que nos evoca - talvez na infância e que reverbera diante do desejo do Outro. Alice não considera e talvez nem poderia, que o sonho segue a lógica do inconsciente.

O desejo de maternar vem realizar-se no sonho de Alice, mas é uma realização disfarçada de um desejo que está interditado. O conteúdo manifesto no sonho é aparentemente incompreensível porque está alicerçado em uma versão disforme do conteúdo latente. Durante o sono há predominância do processo primário do pensamento pela regressão do funcionamento do Ego, assim, há um predomínio do conteúdo imagético.

A película segue entre sutilezas e a dureza que esse casal enfrenta ao precisar se a ver com a frustração da interdição do seu desejo maior. Dentre várias nuanças, a culpa por ter decidido por um aborto quando iniciaram o relacionamento, assombra Alice numa construção delirante da resposta que procura: por quê? Por que eu não posso? Nos entrelaçamentos que a trama alcança e nos encontros que fomentam localizar diuturnamente a ferida ali instalada, o casal vai compondo com as exigências da realidade, apesar da inadequação sentida pelos personagens, sobretudo, Alice que, ao encontro com uma “espera social”, não consegue sentir-se pertencente e demonstra dificuldade em ressignificar sua relação a partir dessa falta.





Outubro de 2022



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