Vertiginosa escritura #18
- Edi Pereira

- 23 de mai. de 2020
- 1 min de leitura
Fonte: autoral
Sob um varal de infâncias penduradas, assento-me para ler o dia num livro que descansa em meu colo. No rosto, todas as brisas já sopradas neste quintal desenham memórias de nuvens e galhos caleidoscópicos, itinerantes.
Coisas de ouvir são dadas ao movimento lento das árvores dançantes ao vento. Alusão ao voo que adensa asas, penas e reminiscências. No alto, o pregador e o céu num único azul. Anil. Ganas de recomeços, origens, gênesis.
A imensidão de mim é despossuída de destinos. Encontram-se nos baús abertos em que guardei um a um os meus vazios.
No terreno de poucos ruídos, quase silente, fecho os olhos e ouço vozes. Muitas. Vozes que inventam um modo particular de falar. Uma linguagem perfumada de terra molhada. Idioma de criança. Sílabas inaugurais. Impermanente.
No topo do roseiral, vez ou outra, a inviolável generosidade da borboleta. Uma alegria rara. Minusculosamente gigantesca. Sem caber nas medidas ditas.
Num susto, um canto dissidente desdiz as impotências anacrônicas. Comunica com palavras improvisadas à passarinho.
Pelas bordas, pedriscos gastos, pontiagudos, valentes. Sedimentos, minerais, tesouros inteiros. Desobediências. Resigno-me. Do fundo quase esquecido do quintal, neste afeto hoje maduro, condenso. Sobras do tempo. Minha arqueologia.
20 de Maio de 2020




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