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Vertiginosas escrituras #19

  • Foto do escritor: Edi Pereira
    Edi Pereira
  • 22 de jul. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 22 de jul. de 2020


Fonte: autoral


Um dia de bronze

O ano era novo. O sentimento de sobressalto a vociferar pelo peito, pretérito, puído, obsoleto. A viagem ao Rio, minha cidade encanto, expressava o desejo gentil de me retirar daquela dor teimosa que arranjara um cômodo exclusivo em cada quina no meu corpo para habitar. Há muito havia abandonado o olhar espantado com as minúcias do mundo, o riso fora de hora, o silêncio atencioso. Há muito me assemelhava à madeira oca no meio da vereda: seca, morta, em matizes cinza.

Ao encontro da cidade de curvas suntuosas, pigmentos soltos pelo caminho. Foi a primeira vez que me aventurei a ir de ônibus. A decisão à beira da viagem: réveillon, Copacabana e espetáculo de fogos de artifício esgotaram as passagens aéreas e a insistência da amiga que bradou na esperança de voltar a vislumbrar em mim uma fagulha de alegria, fizeram-me aceitar a loucura premeditada.

A viagem alongada e solitária de mais de oito horas, além de bagagem, travesseiro, ônibus, passagem, rodoviária e muitos transeuntes exageradamente felizes, precisava favorecer algum alento. Pensei logo em Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. A cada leitura, encontrava mais semelhanças com Lóri. O livro de orelhas feitas a marcar frases impressionantemente minhas, grifos antigos, pequenas anotações esquecidas, já fora lido uma porção de vezes. Grande parte delas nos últimos dois anos e meio.

Foi entre as páginas já conhecidas e completamente inéditas a cada nova letra decodificada que passei sem notar por todas as horas que separam a paulista e interiorana Araraquara à carioca de ruas largas, artistas a cada esquina, areia nos pés, Rio de Janeiro. O cheiro do mate. Ah, que saudade que eu estava do cheiro do mate! Nem me importava com o gosto gelado, batizado pelo limão a refrescar o corpo inteiro naquele calor que arrepiava a pele. Era o cheiro que desanuviava minhas lembranças.

Chegar e abrir os olhos para a imensidão de água num azul quase índigo suspendeu por alguns segundos a minha respiração. Tão logo, destravei os ombros, senti o vento tímido no rosto e pude sentir-me novamente inteira. Como se a maresia me colasse os cacos.

O entardecer apressado dos turistas anunciava o festejo que logo viria pelo cair da noite. A cidade toda em festa: preparativos, ceias, frisantes, cores de desejos nas vitrines. Tudo se adornava para o irremediável ano novo. Esperanças renovadas. Realidades endurecidas pela mesmidade. Debruçada na janela do apartamento a constatar minha impaciência para essas cerimônias, decidi não ir à festa, aos fogos, à multidão de desconhecidos. Do alto da minha desesperança com a suposta novidade que o badalar da meia noite traria, belisquei o aperitivo preparado, com a taça cheia de bebida borbulhante, brindei junto à garrafa, a reiterada tentativa de sofrer menos pelos próximos 365 dias.

Caminhei até a areia. Leblon. A orla era só minha. Todos os outros passaram para Copa. Ouvia os fogos. Via num rabicho, suas luzes. Sentei-me a olhar o mar. Suas ondas vacilantes. O som de calmaria. A noite inteiramente negra. Lua entre nuvens. Nenhuma estrela. À direita, a comunidade em festejo. Seus artifícios pareciam mais bonitos, mais vivos, mais reais que os de Copa. Sorri. Na despedida do mar e do ano arrastado por tristezas, dei as costas e segui ao descanso do réveillon.

Pela manhã, saltei da cama perto das 7 horas. Calcei os tênis no ímpeto de andar pela primeira vez. Mirei a escrivaninha no meio da sala. Verniz envelhecido, gavetas com puxadores dourados, caneta sobre um bloco de notas e o livro. O meu livro de Clarice. O livro que ela escreveu inspirada em cada desiderato do meu existir, ainda que eu sequer tivesse nascido. Uma aprendizagem.

Imaginei caminhar até o Leme, bairro em que Clarice viveu. Imaginei sentir a sua energia, olhar para o mar e jogar alguma conversa fora. Imaginei ouvir suas respostas.

Sem pensar na distância que teria que percorrer, saí do Leblon na ânsia de encontrá-la. Precisava ter com ela a minha primeira conversa. Ela me conhecia. Saberia o que me dizer. Saberia ao menos como me ouvir.

Foram quase duas horas de caminhada ininterrupta. Pelo caminho, restos de uma festa. A areia escondida entre fragmentos de vidas. O mar, sensivelmente triste. A beleza do Rio, soterrada entre dejetos, paletas e olfatos repugnantes. Voltei o olhar ao fim da orla. Lá estava o Leme, em samba, trajes de banho, risos infantis. Apressei o passo. Na chegada, corpos em encontros. Ao levantar o olhar, sentada com as mãos sobre o livro no colo, pernas entrecruzadas, olhar perdido. Ao seu lado, um cão. Bronze. Estremeci. O desejo era de libertar o choro há tanto preso na garganta. Desejo de correr ao abraço, ao afago, ao olhar. Era como se ela soubesse o tamanho de cada uma das minhas dores. Como se ela tivesse as respostas para todas as minhas questões. Eu que sou tão dada à pergunta.

Recobrei a dimensão do dia: 1º de Janeiro de 2018. Recobrei a dimensão do lugar: Rio de Janeiro. Recobrei a dimensão do encontro: Clarice.

Era ela. Enfim. No acontecimento do encontro tátil, respirei. Talvez pela primeira vez. Sentei-me ao seu lado. Senti por alguns minutos sua presença sem ousar fitar seus olhos. Encorajada pela clarividência óbvia de nossa conversa, toquei suas mãos. Quis sentir sua força. Ao fundo, as águas esbravejantes entre as pedras ordenavam a fúria aprisionada em meu peito. Silenciei. Senti cada uma das suas palavras inauditas. Descansei minhas mãos frias em seus ombros. O tempo suspendeu seu transitar. Não saberia contabilizar nosso encontro em minutos ou horas. Foi simplesmente suficiente.

Ao decidir retornar, a passos lentos e sentidos, regressei novamente o olhar à sua sóbria corporeidade. Só aí, me lembrei do trecho: “Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Acenei afirmativamente com a cabeça e compreendi.

02 de Julho de 2020

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