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Vertiginosas escrituras #20

  • Foto do escritor: Edi Pereira
    Edi Pereira
  • 28 de ago. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de ago. de 2020


Fonte: autoral


Verbo acriançar

Era sempre aos sábados. Acordava com o sabor do dia a descobrir, saltava da cama e, na ânsia de não perder um único passo do ponteiro do relógio antigo no alto azulejo da cozinha, corria a irritar minha mãe no apressamento do encontro quase fraternal com a amiga de sala, qual tive toda a infinidade de dias da semana para conversar. Mas as geografias mudam as histórias! Estar na escola em seus coletivos espaços, tempos e disputas, prefiguravam relações quase rasas, instantâneas, ligeiras. A oportunidade de uma amizade exclusiva irradiava em meu peito o desejo egoísta de tê-la só para mim.

Minha mãe de escassa paciência mandava-me abrupta ao banho como quem de súbito se livraria de um problema, mas eu nem ligava. Entrava com cabelos embaixo d’água imaginando a brincadeira, a boneca a ser levada, a proposta a ser feita, ainda que na ausência do saber de sua aceitação. As incertezas eram menores que a euforia de estar com quem verdadeiramente, infantilmente, genuinamente amava.

O banho, quase infame era motivo de reclamação materna durante todo o trajeto para a casa brincante que me esperava. O nome, Juliana. Gostava da sonoridade. Era um nome comum, diferente do meu. Por longo tempo odiei meu nome, seja pela suposta dificuldade de pronunciá-lo que tinham as professoras, seja por não encontrar nele pertencimentos, sonetos, canções ou classe semântica possível. Sentia vergonha. Era um nome sem história, inspiração ou poesia. Mas isso não acontecia com Juliana. Sentia pelo nome dela admiração, ternura, musicalidade.

Pelo caminho, inquietava-me até a chegada delongada que os mínimos dez minutos que separavam a minha casa da dela pareciam custar. Na chegada, uma explosão de alegrias, afetos, imaginações divididas e multiplicadas, minhas, dela, nossas.

Neste dia, qual não foi o espanto quando em minha chegada, Zé, pai de Juliana, chamou minha mãe de canto para aquelas conversas emudecidas que os adultos tinham diante das crianças. Acho que essa é outra raridade do passado. Depois – só depois – é que soube que a conversa entremeada no portão se tratava de um pedido, uma autorização. Zé havia programado um passeio conosco e precisava que minha mãe autorizasse para fazê-lo. Um respeito quase extinto.

Minha mãe ainda que fosse dessas pessoas dadas à desconfiança, de olhar rasteiro e crente em castigos divinos a cada passo enviesado, altamente cuidadosa com os caminhos que as filhas por ventura dessem na vida, cedeu. Permitindo o passeio, saltamos no banco traseiro do Ford Corcel marrom de maçanetas cromadas do Zé. Eu amava ver esse carro na garagem da Juliana. Considerava escandalosamente elegante pelo brilho lustrado de sua pintura e pelas quatro portas, tão incomuns na época para pessoas como nós. Ao adentrar extasiada no carro-carruagem, num período em que cintos de segurança pareciam desnecessários, fomos logo rodando as manivelas no intuito de contemplar os vidros abaixarem e magicamente serem engolidos porta adentro. Portas traseiras!

Com o movimento, sentíamos de olhos fechados o vento revirar nossos cabelos. Os meus, da cor do Corcel, finos, lisos, embaraçados. Os dela, negros, encorpados feito os de índia como ela mesma dizia.

Foi uma viagem apesar de não termos saído da cidade. O destino? Chão de terra batida, porteira sem pintura, uma velha casa no alto de um modesto morro. Aos pés do morro, um poço. Foi na tampa desse poço que comi queijo com goiabada pela primeira vez!

Os adultos adentraram à casa de portas altas e pintura azul descascada. Juliana e eu ficamos soltas pelo grande terreno, talvez um sítio, sentindo o poder inteiro de uma vida sem amarras. Corremos incansavelmente do alto dos nossos sete anos. Escalamos a porteira que dava a um corredor onde escutávamos tão somente o eco de nossas risadas. A graça estava contida no vazio, nos nossos corpos expostos à força em cada tábua a ser vencida. Ríamos como quem morre e precisa se encantar pelo minguado de vida que ainda lhe resta.

Ao chegarmos do outro lado, num estouro quase delirante, sentimos o chão vermelho de poeira solta tremer sob nossos pés. Olhamos para baixo e no cessar do riso, escutamos como duras botas em marcha de todo um exército se aproximando. Ao nos mobilizarmos para além do medo, avistamos uma boiada inteira a subir galopante o corredor cercado em que estávamos. Eles vinham apressados, talvez famintos, talvez sedentos, não sei. Fazia calor! O mar branco de couro, pelos e patas – largas patas – se aproximava deveras ligeiro e o nosso saltar, ainda que atravessado pelo riso e zombaria, conhecíamos, era alongado.

Sentimos tremer nossos pés pelo chão solto em sismos bovinos. Sentíamos tremer nossos peitos, acelerados e fibrilantes que estavam nossos corações. Dessa sensação ao salto retornante e salvacionista, ruptura de memórias. Quando nos vimos, estávamos vivas, inteiras. Caídas às sujeiras de chão, é certo, mas respirantes. Há minúsculos centímetros, separadas da manada, buscamos com as pontas dos dedos o tato pelo corpo completo. Eles estavam lá, o dela e o meu. Olhamo-nos nos olhos ainda incrédulos. Respiramos profundamente mais uma vez e num gesto inesperado, abraçamo-nos no meio da poeira alta. No alto de nossos olhos, patas em cascos. De rompante, rimos timidamente dentro do choro aliviado que exaltava a gratidão.

Foi num sábado. Um sábado ensolarado de passeio autorizado. Foi num sábado ensolarado de passeio autorizado e de muitas aprendizagens infantis.


21 de Maio de 2020

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