top of page

(Im)passes psicanalíticos #2

  • Foto do escritor: Edi Pereira
    Edi Pereira
  • 21 de ago. de 2023
  • 4 min de leitura

Afetos que nos afetam: entre mentes brilhantes e delirantes




Na consideração da esquizofrenia enquanto uma das manifestações possíveis da psicose e, portanto, como uma perturbação do inconsciente apreendida na decorrência de um conjunto de corruções psíquicas, sejam elas do pensamento, da capacidade de ponderação, dos afetos, dos limites e alcances nas relações sociais, afora uma cisão da personalidade e do eu, não é raro nos depararmos com premissas causais que se apoiam numa matriz fisiológica, endógena para o acometimento deste estado psíquico em que prevalecem elementos sensoriais primitivos nos sujeitos. Sem desconsiderar a influência biológica, mas na compreensão de que uma relação unidimensional não é apropriada para se pensar o desenvolvimento do psiquismo, Freud em seus escritos, destaca as implicações sociais e linguísticas na determinação de tais fenômenos.

Caracterizados muitas vezes por distorções basilares em que as características da percepção, do pensamento e dos afetos nos mais distintos relacionamentos são inusuais e, na aproximação do que Foucault desenvolve em A história da loucura (2012), trazem à tona uma ruptura com os padrões ou valores dominantes em determinadas sociedades, os transtornos esquizofrênicos fomentam a dificuldade de reconhecimento de si e, concomitantemente, se funda uma assimilação nociva que passa a se embaraçar com esse ser e a cambiar o contato com ele. O sujeito esquizofrênico comumente se encontra em posição de fratura consigo mesmo, sentindo-se anulado e destruído em numerosos aspectos.

Diante dos muitos desdobramentos ocasionados pela esquizofrenia é que nos debruçamos uma vez mais à observação e análise do drama biográfico estadunidense “Uma mente brilhante” de 2001, dirigido por Ron Howard, com roteiro de Akira Goldsman e baseado no livro A Beautiful Mind: A Biography of John Forbes Nash (1994), de Sylvia Nasar, que conta a história do matemático John Forbes Nash - brilhantemente (perdoe a redundância) protagonizado por Russell Ira Crowee - e seu enfrentamento árduo contra a esquizofrenia.

A película em questão apresenta fragmentos da vida de John Nash desde quando ainda era um jovem matemático estudante na Universidade de Princenton ou, mais propriamente, quando os episódios delirantes de John têm seus primeiros registros. Pessoalmente eu desejaria conhecer os aspectos da infância de John, sobretudo no que diz respeito às relações familiares mais iniciais de sua vida, mas o filme faz esse recorte e, justiça seja feita, a produção foi bastante feliz em seu roteiro que possibilitou lançar luz sobre um tema tão sensível e, especialmente delicado que é a esquizofrenia desde um ponto de vista antimanicomial.

John nitidamente tinha uma mente inquieta e, parafraseando o título do filme, “brilhante”, no entanto, ao ingressar em Princenton, John se depara primeiramente com sua inabilidade social o que rendeu a ele o enquadramento em muitos estereótipos desagradáveis e um alto nível de autocobrança e estresse. Num segundo momento, mas não de modo secundário, se encontra com o fato de que a maioria de seus colegas de turma já haviam publicado artigos, desenvolvido teses e caminhavam a passos mais largos rumo a serem reconhecidos pela sapiência na área em que nosso protagonista ansiava demasiadamente crescer. Seu nível de isolamento aliado à exaustão mental resultado de sua exigência cognitiva, foram de alguma maneira gatilhos que provocaram em John uma espécie de saída para esse sofrimento psíquico que se deu em encontrar em Charlie, um amigo de quarto, que mais tarde entendemos ser uma das criações delirantes de John, um contorno para lidar com essas questões que o afligiam.

Entre os anos de 1951 e 1959, John trabalhou como professor que foi o período em que o filme retrata um aprofundamento dos seus delírios. Ainda que tivesse em meio a delírios que envolviam Charlie, John conseguiu desenvolver teorias que lhe destinou autoridade posteriormente, tanto que foi convidado pelo Pentágono a trabalhar em um código de modo a decifrá-lo. A partir desse evento, surgem outros delírios, como o William Parcher, um espião do governo que designou a Nash o trabalho de descobrir decodificando mensagens em periódicos algum tipo de ataque soviético na guerra fria. Atribuindo a si uma importância imensa no processo de salvar o país desses ataques, John que acaba se casando com Alicia, vai progressivamente denunciando em seus gestos cada dia mais involuntariosos os colapsos que estava vivenciando através dos delírios persecutórios e alucinações sendo levado a um hospital psiquiátrico onde é diagnosticado como portador de esquizofrenia.

A partir do diagnóstico, John foi submetido a tratamentos duros que envolviam eletrochoque e muita medicação que, ainda que o sustentasse longe dos delírios, o deixava apático, improdutivo e esses reflexos o fizeram deixar de tomar os remédios, à revelia do conhecimento de sua companheira incansável (apesar de exausta), Alicia.

Como é sabido, a interrupção do tratamento medicamentoso de maneira abrupta em casos de adoecimento psíquico, podem desencadear crises severas que redirecionam os pacientes às situações anteriormente vividas ou mesmo, circunstâncias ainda mais difíceis que foi o que aconteceu com nosso protagonista. Ao risco de ter que retornar ao hospital psiquiátrico, John decide enfrentar seu estado de outro modo, na tentativa desesperada de resgatar sua própria vida, ele, com o apoio da esposa passa a monitorar seus delírios, perguntando-se todo o tempo se os eventos e pessoas que estavam em seu entorno eram realmente reais e com esse comportamento, às duras penas, deixou de “ouvir” o que esses delírios lhe diziam apesar de ainda os ver.

Ao que consta, ele só conseguiu se recobrar da doença em meados de 1990, e em 1994 ele ganhou o Prêmio Nobel.

A história de John Nash, ainda que sob a perspectiva cinematográfica e sua potencial liberdade poética de produção, nos demonstra e sensibiliza para as dificuldades daqueles que são acometidos por essas manifestações psicóticas, assim como também daqueles que convivem, amam e têm suas vidas completamente atravessadas pelas circunstâncias ocasionadas por essas perturbações do inconsciente. John trouxe para a linguagem a organização dos prejuízos psíquicos vivenciados por ele e, com o apoio incondicional de sua esposa, pode “controlar” seus delírios, o que, stricto sensu é demasiadamente difícil tendo em vista sua intensidade e pela condução de perda voluntária dos pensamentos, dos impulsos e das emoções deixando o sujeito incapacitado.


Outubro de 2022


 
 
 

Comentários


Faça parte da lista de emails

bottom of page