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Quarentena crônica #12

  • Foto do escritor: Edi Pereira
    Edi Pereira
  • 9 de ago. de 2020
  • 1 min de leitura

Fonte: autoral


É noite e o sono não vem. Os sentidos aguçam. Sons passantes. Lá fora, pneus sobre o asfalto. Motores ligados. Transeuntes notívagos. Aqui dentro, ponteiros do relógio. Batidas no peito. Cenário sonoro. Um número: cem mil. Matematização da vida. Coisificação do ser. Inacessíveis para sempre. Evito pensar, sentir, observar. O medo provém refúgio. Reminiscências de outras feridas. O verbo num infinitivo infinito de sensações. Não posso mais conjugar. Abro os olhos e fito a escuridão do quarto. É noite e o sono não vem. Tento me acomodar à cama. Nada parece cômodo, confortável. Penso somente em um número: cem mil. Hostil. Arrepio. A escrita, outrora indelével está imóvel, silenciada. Meus textos, pré-silábicos. Linguagem muda. História difícil de ser lida. Insípida. Juro uma revolução à queda desse muro de impotências. Sobressaltada, perambulo pela casa. A pergunta ecoa: terá o presente devorado o futuro? Não. Não foi o tempo. Sempre soubemos que seria assim. Embrutecidos, não aprendemos. Modo grotesco de fracassar. Sociedade banida. Falida. Tangida. No corredor sinto meu próprio vulto. Transmuto. Ou não. Ainda infante sentia demasiado. "Seremos o que somos com o que nos tem sido", disse um amigo. O acriançamento num suspiro me esperança. É noite e o sono não vem. Nenhum gesto, nenhuma palavra, nenhum olhar. Cem mil. Sem voz. Lábios cerrados. Cem mil. Sem vida. Interrupções abruptas. Cem mil. Sem destino. Afetos discordantes. Cem mil! É manhã e o sono despediu-se despindo minhas fragilidades. É manhã de um amanhã. Um amanhã inescrupulosamente invariável.


09 de Agosto de 2020

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