Quarentena crônica #14
- Edi Pereira

- 10 de set. de 2020
- 1 min de leitura

Fonte: autoral
Os fatos se sucedem à revelia. Entre o sair e o retornar, uma estética outra reincide. Paramentos insólitos. Olhos em frestas, lábios ocultos, pensamentos escusos. Olfato e paladar censurados. Todos os dias, amiúde: improvisações itinerantes. Trivialidades. A cada toque, sensações indômitas. As mãos ressecadas sinalizam as consignas sanitárias gritantes. Carregamos uma infinidade de outros em sedimentos peregrinos de impurezas. As incertezas nos desesperam. As pseudo-certezas ainda mais. Em regressos, despimentos reiterantes. Repetir, repetir - até que fique diferente, disse o poeta. Calçados à porta, roupas esterilizadas, compras em tramas invisíveis. Água, sabão, álcool: impaciência. Conversamos futilidades. À beira da pia, embalagens, etiquetas, produtos. Linguagem cifrada dos perigos. Água, sabão, álcool: enfado. A morada outrora reduto, margeia o medo. Comentamos as tragédias. Lavamos as frutas, os legumes. Lavamos os vidros, os tubos, as sacas. Lavamos as coisas com que se lava. Lemos as notícias. Algumas. Guardamos uma a uma as nossas tristezas. A verdade é que cansamos de tudo. Ou será que tudo é que se tornou demasiado cansativo? Interrogações inócuas. A tarde continua declinando. O asseio persiste: corpos a abluir. 'Higienificação' do existir. Invento palavras para o que nunca senti e também para o que senti e quis chamar de outro modo. Faltam metáforas. Ou sobram, não sei bem. Rotinas inteiras retidas em rastros. Simulacros de uma aviltada (a)normalidade. Repetir, repetir – até que fique diferente, insistiu o filósofo. Fastio da dor. Labirintos cotidianos.
10 de setembro de 2020




Texto incrível! Redação surpreendente! Autora incrível!! Meus parabéns
Edi, que delícia de escrita, cadenciada, coloca foco em nossos pensamentos, aventuramos-nos no universo de suas críticas sutis e no seu talento de bailar com as palavras, e assim, convida ao doce ritmo de seus textos.