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Quarentena crônica #13

  • Foto do escritor: Edi Pereira
    Edi Pereira
  • 18 de ago. de 2020
  • 1 min de leitura

Fonte: autoral


No cômputo do tempo, reminiscências. Algures um ópio: o cessar da semana. Ilusória suspensão do mal. Fragmentos de uma vida porvir. Vertigens. Anulação do cansaço. Indumentária inusual, ainda uniforme. Fotografias instagramizadas. Bons-vivants transitando em transe entre becos estreitos. Mesas amontoadas. Bandejas equilibradas no desequilíbrio da noite. Taças, pratos, o tilintar dos talheres. As luzes, as vozes, a música. Ah, que saudade da música! Da imagem dos dedos entre cordas. Dos cordéis declamados. Dos metais reluzentes a tinir suavemente pelos ouvidos. Do coro às canções conhecidas. Joias polidas. Risos indiscretos que entremeavam fronteiras. Sim, havia muito riso! Nostalgia. Conversas descortinadas. Segredos divididos. Desconhecidos próximos. Uma maneira delicada de disfarçar. Hoje, no fortuito instante, face diante do espelho a pigmentar cores outras. Cabelos ornados. Adornos diversos. No corpo, roupas esquecidas. Dignidade ao enfado. Os acordes acordam a TV. Remoto controle. Controle? Verossímil. Liveficação da vida. Comentários em caracteres. Emojis. Dedos em dados móveis. Mesa posta. Única. Na companhia singular, olhos certeiros. Taças, pratos, o tilintar conhecido dos talheres. Alhures. As luzes, as vozes, a música. Costumeiras. Redescobertas incessantes. Interessantes. No cuidado mútuo, as escolhas consonantes. Aromas e sabores: saberes intensos, íntimos, intrínsecos a uma época. Na varanda, um céu inteiro a contemplar. As estrelas cintilam. Convite ao aconchego. Chego e pertenço. Penso: condição irremediavelmente humana. Incitados a (re)viver modos e mundos distintos, furtivamente encontraremos quem, o que ou como somos? Abalos sísmicos nos comodismos eufêmicos. Aforismos pandêmicos.


16 de Agosto de 2020

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